Deus, mande-os ao inferno!
Jura Arruda
O Senhor pode mandar água, viu? Pode continuar mandando. Se é para me testar. Se é para testar minha força, mande! Destrua casas e ruas, expulse-me de meu abrigo. Tire o pão da boca dos meus filhos e coloque diante de mim uma enxurrada a atravessar nossas vidas. Se é para testar minha força... Eu sou forte, viu? Agüento o peso da destruição, a dor da compaixão e o estômago vazio por dois dias inteiros. Eu agüento olhar para o que costumava ser meu lar e ver escombros. Eu agüento olhar para o futuro e ver que só há uma saída: recomeçar. Eu agüento o olhar triste e as olheiras pesadas de minha esposa. Mas, Senhor, afaste de mim os aproveitadores. Mantenha distantes os gananciosos que querem me vender água por preço de champanhe enquanto meus filhos choram. Mande-os ao inferno, com todo o seu poder!
Daqui a alguns dias a vida voltará ao normal e o sol há de brilhar. Sei que haverá pessoas enterrando seus mortos. Sei que haverá acamados e traumatizados. E eu vou limpar a lama, estender a roupa e reconstruir o que puder ser reconstruído. A dignidade. A saúde. A alegria de estar vivo. Sou forte e vou seguir adiante. No entanto, Senhor, sentirei abalos em minha fé, o senhor há de entender. Por que não posso compreender sua agressividade. Por que não posso compreender suas linhas tortas... Permita-me esta fragilidade.
Não posso ser Deus, não posso regozijar sua existência diante deste morticínio, não posso. Nem conceber a idéia de seca no Nordeste e inundação no Sul. Não posso aceitar que crianças sofram enquanto imbecis aumentam seus lucros vendendo, pelo amor de Deus, a preço de ouro, vendendo água!!!
O Senhor me desculpe, mas alguma coisa está errada. E se eu não sou capaz de entender seus desígnios, me perdoe, mas por favor, não torne tudo mais difícil do que tem sido. Trago em mim sua imagem de bondoso, e é isso que ensino aos meus filhos. Por isso, quando Clarinha me perguntou por que o senhor estava destruindo nossa casa, eu emudeci. Senhor, eu emudeci! - Deus não é bom? Disse-me ela – E eu, Senhor, eu emudeci.
Microconto brinde: “Enchente”
Essa cidade fica pertinho do mar, mas não, ela não aprendeu a nadar.
Moça, pena, tinteiro
Jura Arruda
Há muito tempo conheci uma moça. Ela tinha uns olhos firmes que pareciam mirar um único objetivo, mas seus passos erravam. Usava um nome inventado e tinha mil idéias. Eu a conheci numa dessas experiências que a vida lhe proporciona, de estar onde não se imaginava e de fazer o que ainda hoje você não sabe se era capaz. Foi nos tempos de Chilli Magazine, um programa de rádio do qual participei ao lado da competentíssima Ana Paula Peixer.
A moça de que lhes falo lia páginas e páginas, escrevia menos do que devia e tinha uma voz belíssima para o rádio. Bem, antes que você me pergunte, minha voz não é de radialista e, como falei antes, ainda não sei se tinha capacidade vocal para estar lá, mas estava. O programa era semanal, aos domingos, e era uma farra fazê-lo. Entre a consciência política e cultural e o besteirol desvairado, ríamos e conversávamos duas horas inteiras.
Entre os integrantes, estava essa moça que um dia precisou sair. Foi em busca de seus sonhos, foi tentar seguir a direção que seus olhos firmes miravam. Nossos papos passaram a ser esporádicos e por Messenger. Numa dessas conversas ela me revelou a forma como se via, e a visão de si mesma era das mais puras e singelas. Quero crer que ela tenha conseguido se transformar nessa imagem. Guardei o trecho no qual ela se descreveu pra mim naquela janela de bate-papo: “Imagine uma moça de vestido de linho fino, branco, bem suave. Cabelo solto com uma flor na orelha, pés na grama, recostada em uma árvore, com uma prancheta, uma pena e um tinteiro ao lado. É assim que me vejo”.
Imaginei e imagino todos os dias essa moça assim, em suaves vestes, sob um sol tranqüilo e vespertino, escrevendo os mais lindos versos, as mais elaboradas prosas com uma letra desenhada, e que vez ou outra vislumbra o horizonte entre o amarelo dos ipês imaginando algo além do que ser uma moça de vestido de linho fino, branco, com flor na orelha recostada numa árvore com uma prancheta, uma pena e um tinteiro... É que aprendi com o tempo que sempre buscaremos algo além. É isso que nos faz caminhar, não é? Pois é. Para onde ela caminha agora? Não sei.
***
Microconto brinde: “Alalém”
Pra lá do desejo, ela tinha mais desejos, entre eles, o desejo de não tê-los.
Qual é, jacaré?
Jura Arruda
O que se passa na sua mente, jacaré? Com tanto lugar bom de viver foi logo escolher um rio sujo no centro da cidade! Que calamidade, hein, seu papudo? Pode me dizer, por acaso, que extravio lhe tirou do pântano que é seu lugar? Não me diga que foi uma jacaré fêmea? De nome Jacaroa, já coroa, já sabida de sua fraqueza? Foi coisa de mulher não é, jacaré? Escolher para morar um lugar tão inóspito e barulhento é coisa de quem cegou por amor. Que horror, viu?
Você parece um adolescente cuja mente é turbilhão, cheia de idéias, perdida de emoção, energia e revolta. Fala sério, seu aligatorídeo, você não atingiu ainda a maioridade, não é? Se fosse mais crescidinho saberia que não se deve ir atrás de qualquer rabo de jacaré de saia. Nem se largar feito um monstrinho do Cachoeira. E quer saber mais? Seu perfume está horrível, há quanto tempo não escova os dentes dessa bocarra?
E seu nome, quem lho deu? Algum sarcástico? Fique sabendo, mocinho, que Fritz é nome de sapo e que você deveria é ter um nome pantaneiro, feito Almir, Sebastião ou Reginaldo. Um nome próprio e apropriado. Entendeu?
E tem mais: que idéia absurda foi essa de atravessar a rua de madrugada? Ia para a balada, jacaré? Podia ter virado asfalto! Asfalto de couro de jacaré, já pensou? Ainda bem que tem gente boa nesse mundo e chamou logo os bombeiros, porque você, seu boca grande, ia acabar morrendo... Caramba, jacaré? Acho que entendi! Você tentou o suicídio! Tinha o peito doído de desamor! A Jacaroa não lhe quis? Fez troça de você? Não chore, papudo. Seque suas lágrimas que eu sei que são de crocodilo, viu? Balance o rabo, levante a cabeça e viva a vida que você escolheu. Você ainda é jovem, tem um mundo pela frente! Vai namorar muito ainda, vai chorar bastante e rir um monte. Vai perceber que com o tempo, você fica menos aventureiro e se equilibra entre a paixão e o nada sentir, um meio termo de meia-idade, que lá no fundo nos cai bem. Só não tente de novo atravessar uma rua no meio da madrugada e se matar. A adolescência é uma fase difícil, mas olhando bem até que é boa. Não vale a pena interrompê-la por causa de uma jacaroa. Não se deprima demais, nem fique nervosinho, vá pescar! Eu ouvi dizer que no Cachoeira já tá até dando uns peixinhos.
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Microconto brinde: “jovem jacaré”
Cansou de Cachoeira, pegou a estrada.
De Joinville a Pindamonhagaba
Jura Arruda
O ser humano é igual em qualquer lugar. Se levado pela emoção, emociona-se; se convidado a rir, ri-se. Nascido de origem européia, ariana, clara ou de origem matuta, mulata, escura, ser humano é ser humano e ponto. Há que se considerar sua cultura, a geografia de onde vive e a situação social? Sim, por certo. E é na multiplicidade que se enriquece, se transforma e se iguala tanto mais. Ser humano é ser humano e ponto.
A constante migração que se dá no Brasil tem servido para a mescla de cultura, cor, culinária, verbo e conhecimento. O Brasil, do movimento migratório, enriquece e aprimora-se. Sabendo disso, o professor de história, diretor teatral e empreendedor, Silvestre Ferreira, deu início a uma série de trabalhos voltados para a pesquisa do ser humano e o teatro. Depois de levar ao palco o entardecer da vida, num dos belos trabalhos recentes da dramaturgia joinvilense, sua companhia, Dionisos Teatro, fez um retrato fiel da Joinville que adotou filhos de outras paragens, como este próprio cronista.
Acontece que durante parte de sua temporada na cidade, era natural ouvir na platéia que o espetáculo era lindo, mas que infelizmente tinha abrangência apenas local, dado o foco de sua história ser a migração para Joinville. Ledo, imenso, desastroso engano! Mais do que ser um espetáculo regional, é um espetáculo sobre seres humanos! Ser humano é ser humano e ponto.
Pois que a peça “Migrantes” participou do Festival de Teatro de Pindamonhagaba e voltou com nada menos do que quatro prêmios, fora a reação de regozijo da platéia, que como em Joinville identificou-se, emocionou-se e riu-se. A Companhia Dionisos de Teatro trouxe os prêmios de melhor atriz, para Andrea Malena Rocha; de melhor pesquisa e iluminação, para Hélio Muniz e pasmem céticos! De melhor espetáculo. Longe do berço, numa Pindamonhagaba que repousa entre São Paulo e Minas Gerais, Migrantes venceu. Bem, talvez haja mais coisas em comum entre Joinville, chamada dos príncipes, e Pindamonhagaba, princesa do Norte. Ou talvez, sejamos todos iguais, todos humanos.
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Microconto brinde: “Ato contínuo”
Não há peça que o paço impeça.
Azarado pra cachorro
Jura Arruda
O Teobaldo Viana é bancário e escritor não publicado. Apesar de ter nascido numa travessa da Avenida Paulista, gosta mesmo é da Rua das Palmeiras, que conheceu aos 2 anos e nunca mais largou. Andei lendo uns trabalhos dele e achei que um de seus textos bem que merecia um espaço no jornal. Aí vai o texto, com seu linguajar pra lá de joinvilense.
O cara é trabalhador viu, Zé Guedé! Forte e duma disposição que Égua! Eu queria ter igual. Mas o demonho é azarado que uich! Só escolhe caminho errado, só compra chineque velho e nunca viu um pão com schmia cair de cara pra cima. E nem fale em benzedeira, ele não vai. Capaz! Diz que isso não voga.
Só não é mais da pá virada porque casou com uma mulher e tanto. E teve dois piá que dão gosto. Mas a sorte dele foi só essa. Agora tá trabalhando na Tupy. Faz horas que pediu uma troca de horário, só que até agora nada. Mas, quer ouvir coisa pior? Ano passado teve que fazer plantão na noite de Natal. Ficou fulo. Manutenção é isso, né? De pena ou juízo, o encarregado mandou um peru pra ele, que até gostou, mas vou te contar: o peru foi só pra bonito.
Resolveu pegar meia hora de licença e levar o presente congelado pra casa. Voltava depois, que tinha uma noite inteira de trabalho. Pegou a zica e pau na cara! Mas você sabe como é Joinville no verão, o gelo começou a derreter. E ali naquela ruazinha depois da Imaculada Conceição o peru já tava fresquinho. Foi um tal de cachorro latir pra cima do azarado, que bicicleta virou ferramenta de bater. Acertou uns tantos, mas quando deu por si o peru tinha escafedido, virado ceia da cachorrada. A gurizada ria que se acabava do pobre e o jeito foi voltar pro trabalho fulo da vida. Sorte foi que a sogra tinha matado um porco e mandou o pernil. Mas ainda teve que escutar da mulher um lamentozinho doído de ouvir: “Ah, o que eu não daria por um peito de peru bem molhadinho? Bem que tu podia ter ganho um, né pai?”
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Microconto brinde: O Velho Circo
O velho circo chegou com um tigre de bengala, um palhaço no fim e uma trapezista caidinha por mim.
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