Jurandyces Arrudianas
   Ilusões da véspera de Natal

Jura Arruda

Foto: http://timorlorosaenacao.blogspot.com/

 

Ruas centrais

Caixas de diversos tamanhos envolvidas por papéis estampados desfilam nas ruas do centro da cidade. Milhares de pares de pés disputam espaço na calçada do centro da cidade. Pneus rodam lentos na expectativa de poder encostar próximo a uma guia no centro da cidade. No centro da cidade, no censo dessa idade, no sense nasce e dá de...

Ruas outras

Pés em fiapos de chinelos correm em jogos de enganar a pobreza. Sacolas balançam em saídas de lojas de 1,99. Balas e açúcares dividem espaço com dentes das bocas. Uma carroça carregada de papelão atravessa a vida e o futebol da garotada. Um burro de rena, um catador sem barbas de olhar suspenso.

Ilusões

Duas janelas com molduras diferentes emolduram diferentes paisagens. Diferentes crianças com olhos gulosos desejam coisas diferentes com a mesma intensidade. Os focos se tocam no desejo em comum, incomum, um como um... E se afastam no mesmo clique de acontecimentos, no piscar das luzes coloridas que ardem da mesma maneira em olhos vários.

Janeiro

Brilho passageiro, átimo de claro/escuro. As miragens se dissolvem em janeiro, todos os pinheiros secam e as bolas de natal, como as frutas, caem. A mesma rua com outra paisagem. A mesma gente com outros desejos. A mesma batalha de vida diária sem o mesmo cheiro no ar. A mesma música velha conhecida sem o sonho que nela ondulava.

Lembrança

Novos anos, velhas liturgias e a lembrança de que era melhor antes. Quando criança brincava na rua, descalça e desprovida, mas com sorriso aberto. Quando as pessoas se encontravam. Quando a diferença entre as ruas centrais e as marginais era menor, sabe-se lá por quê. E da janela, na luz que emanava dos televisores, as ofertas e os sonhos cabiam nos desejos, ainda que os desejos nem sempre coubessem nos bolsos. Mas havia fantasia e sonho e sinos a tocar.

A vida fica mais bonita na lembrança do que nos olhos. As ilusões do Natal acabam em janeiro. Sempre em janeiro, em todos os janeiros.

Escrito a quatro mãos com a escritora pernambucana, Ester Liu.

 



Escrito por Jura Arruda às 11h33
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   Quem entende essa paixão?

Jura Arruda

Quando o juiz silvou seu apito, na última partida do campeonato, sonhos desabaram, outros se concretizaram e o futuro começou a dar sua cara a vencedores e a derrotados. Posto um ponto final no campeonato, o regozijo do título durou poucos dias; o próximo ano já clama por atenção. Posto um ponto final no campeonato, o lamento durou a saída do campo e o próximo ano já clama por atitude. Uns celebraram vitórias pessoais, outros choraram as chances perdidas. Mas é no coração dos torcedores que os maiores tremores se deram: de alegria na explosão da vitória, de tristeza no sabor da derrota.

Feita a festa e dados os louvores ao vencedor em capas de jornais, revistas e internet, é hora de pensar o futuro. É hora em que a bola deixa de ser o núcleo desta célula viva chamada futebol para que as atenções se voltem à formação dos novos times. Quem chega? Quem vai embora? Entram em campo os cartolas, que driblam, chutam e defendem seus planejamentos em intermináveis retóricas. Reformulação, contratação, empresários, luvas e salários são as palavras que substituem bola, lançamento, passe, drible, assistência e gol.

Eu, que não sou de ir ao estádio porque meu time tem sede longe, na cidade onde nasci, comprei as transmisssões dos jogos do campeonato pela TV, o chamado “Pague Pra Ver”, paguei e vi todos os jogos, sem exceção. Eu, que não sou de gritar, xingar juiz ou dar pulos na hora do gol, entreguei-me cada segundo dos 90 minutos de cada jogo no conforto do sofá, onde alegria e sofrimento interiorizados alimentaram a gastrite com a qual convivo nos últimos anos. Meu time mais venceu do que perdeu. Fui, pois, mais feliz do que triste nas quartas à noite e nos domingos à tarde.

Esta semana, sem juizes, apitos, bola, craques e os vários 90 minutos diante da TV, voltei minha atenção às manchetes, porque meu time está divulgando as contratações para o próximo campeonato. A cada nome anunciado, projeto a escalação, tento identificar o estilo de jogo que o time terá encaixando as 11 peças que compõem minha renovada esperança. Vislumbro um time com mais toque de bola no meio-de-campo, com mais agilidade no ataque, e com uma defesa forte, onde os zagueiros não dão chutões para onde o nariz está virado, mas roubam a bola e saem tocando-a num envolvente jogo que leva às redes adversárias. O futebol, definitivamente, não é só programa de quarta e domingo, nem se encerra com o término do calendário esportivo, ele se estende na expectativa de novas conquistas, de belas jogadas, do lindo gol, do título. Paixão que nunca se acaba, nem tira férias. Quem explica?



Escrito por Jura Arruda às 11h57
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   Relações fecundas

Jura Arruda

Cada ser humano é um óvulo. Quisera me abster das palavras e deixar você pensar e discorrer sobre isso, mas não posso. Ainda que no decorrer dessas linhas empobreça-se o tema, hei de concluí-lo, ou melhor, prolongá-lo, que a verdade não se encerra num escrito, nem se encerra por meio algum. Creio que não. A verdade, dizia um poeta alemão, muda com o tempo, a moral, a mudança do próprio homem e de sua visão. Pois, vivemos a renascer a cada verdade estabelecida ou ideia apresentada. Porque ideias, como espermatozóides, chegam-nos aos milhões a cada palavra dita, a cada ação, reação ou gemido. A convivência humana mais gera do que faz morrer. Isso! Mais gera do que faz morrer.

Veja só quantas verdades acha que tem esse cronista! E para cada verdade, ele há de ter mil mentiras incrustadas em seu velho útero, e que se disseminam também. Eu disse útero? Ser humano é feminino, a língua portuguesa se enganou. E vida, feminina também, é exercício de receber, fecundar e doar. Ou doar-se. Mas nem tudo que se doa é terno, nem tudo que fecunda é sadio, nem tudo que se relaciona é integração. Há úteros secos, palavras estéreis e há, pois, o que é, o que pode ser, o que foi, o que não foi e o que já era. Mas afirmo que cada ser humano é um óvulo. E o amor? Vejamos, um amor dolente pode fecundar ódio ou tristeza, certo? E tanto pode gerar o desejo de nunca mais, quanto a gana de revivê-lo. Rega-se para saber. Um encontro casual pode deixar marcas indeléveis, um amor eterno pode se perder no próximo, o silêncio pode gerar gritos e gritos podem gerar manhãs silentes. Tudo no mundo é fecundo. E nada na vida é infinito além do que possa durar. Foi Vinícius que fecundou isso em nós.

Fecunda-se por palavras, por imagens, pelo cheiro. O sol do meio-dia que reflete nos cabelos vermelhos daquela moça parece sol de fim de tarde. Seu andar parece notícia alvissareira em tarde nublada. Semeia na réstia da luz, em tantos quantos a veem, a esperança de possuí-la, a angústia de não tê-la, poesia e lamento. Se nada disso, fecundada está uma lembrança da moça de cabelos vermelhos a passear no sol do meio-dia.  Fúteis mentes férteis!

O amor que termina, a briga sem razão, o abraço, o amasso, a primeira vez, o último beijo, a troca de olhares, a troca de palavras, o esbarrão na calçada, a gentileza, a sutileza, o crime, o filho que nasce, o filho que não nasce, o sonho e tudo que no ser humano é comum e carece de dois tem o poder de fecundar em humanos o que humano pode ser.

Nem sei se era isso que eu queria dizer. Nem toda mentira é oposto da verdade Nem todo texto fecunda. Escrever também é masturbar.

 



Escrito por Jura Arruda às 11h58
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   O pecado e a natureza

Jura Arruda


Foto: efisica.if.usp.br

 

O Invocado foi de novo para a oficina. Cheio de birra, quando diz que não, não há quem o tire do lugar. Voltei a pegar ônibus. Como eu andava distante! Como o carro nos isola e não percebemos. Não é a vida que passa rápido, é a paisagem no parabrisa que voa. No ônibus, dividimos o ar, o espaço e um breve momento em que caminhamos todos na mesma direção. Ouve-se a notícia do dia no diálogo dos vizinhos, o homem que reclama do chefe, a garota que encontra a amiga, o menino que devora um pacote de pipoca, venturas e desventuras, fragmentos de realidade, pessoas vivas que andamos substituindo por personagens herméticas da tela plana. Deleito-me a olhar a beleza e devorar tanta fauna. Nas linhas dos coletivos, a cidade mostra sua cara, suas pernas, suas ancas. É lugar onde um coração sensível é capaz de apaixonar-se rápida e diversas vezes.

Comportado leitor, fidelíssima leitora, chego à conclusão de que se La Donna è Mobile, anche l’uomo. E piu! Não dá pra não ser volúvel, não dá pra não desejar essa vida cheia de formas, esse desfile, isso tudo que os olhos já não enxergavam mais porque viam apenas placas de trânsito e faróis.

Não existe pecado. Existe natureza.

O amor romântico, a promessa de amor eterno e todo sonho cinematográfico que alimentamos sobre almas gêmeas é criação do século XII que, de tão bela, acompanhou o imaginário popular séculos depois. Mas é só beleza. Monogamia é apenas um sonho alimentado por finais felizes, e já sabemos, eles terminam antes do fim. O que vem depois é vida cotidiana, envelhecimento e cansaço. Ah, não fossem as regras morais e os credos!

Volto ao que vejo no trajeto entre minha casa e o centro da cidade. A moça compenetrada a ler um livro; o senhor absorto a olhar para fora, mas que no fundo olha mesmo é para dentro; a senhora que mexe mais uma vez na sacola para conferir qualquer coisa. Que música ouve aquela menina com o fone? Ela me olha e me faz ver: eu a estava olhando mais tempo do que devia. Baixo os olhos. Pés! Ah, os pés que o verão revela! Unhas arredondadas, quadradas, pintadas ou não; dedos juntinhos ou livres numa sandália rasteira; pés claros, morenos, vivos, que exibem certamente as personalidades de suas donas. Minha expressão corporal parece fruto de tristeza, mas não é. Olho para baixo porque lá está bonito, porque lá há pés e não pedais, pés das moças pelas quais me apaixonei e que talvez não veja novamente porque voltarei a me isolar dirigindo o Invocado. Mas hei de dizer que não há pecado nesse mundo, há natureza humana, há moças bonitas e há traição em não amá-las.

 



Escrito por Jura Arruda às 16h47
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   Bela, santa, nossa!

Jura Arruda

“Eu amo mesmo sem saber, sem ter notícia alguma de vocês. Invento a vida nos lugares que acho que nunca vou conhecer”. Começa assim a música do Biquini Cavadão que canta a beleza do que simples se fez por natureza. Pequenas cidades, sumidouro dos estresses diários, vida in natura, doses essenciais. Fora do (Google) Mapas, ocultas no GPS mais modernão. Costa, litoral, serra, vale. Se vale? Vale muito. “E não me importo se o progresso é apenas uma antena de TV, pois o que quero ver é mais, além de carros e sinais”.

Na semana passada percorri inúmeras cidades de Santa Catarina, esse estado de graça, esse éden pós-moderno que eleva a alma de quem cruza suas estradas. Deixei um tanto da minha alma cansada por lá e hei de voltar, hei de ir mil vezes, hei de conhecer todas as pequenas cidades de Santa Catarina, antes de sonhar com as pirâmides, Coliseu ou cidades submersas. Você, meu enraizado leitor, não tem a menor ideia do que tem de bonito a poucos quilômetros daqui.

Fui ao sul, Laguna, Tubarão, Urubici, Imbituba, Braço do Norte, São Ludgero e, benza Deus! Santa Rosa de Lima. Dois mil e cem habitantes, quedas d’água, rafting, águas termais, água mineral na torneira! Um jeito simples, um clima de curar tuberculose e a sensação de que não se pode morrer sem aproveitar muito disso tudo. Minhas retinas registraram e eu não vou esquecer as encostas da serra geral.

Menos ao sul, conheci também o alto vale do Itajaí, onde as estradas não são duplicadas e o passeio ganha certa cara de preocupação, mas onde as paisagens e o povo acolhedor fazem você esquecer que passou algumas horas ao volante, e mais, fazem você querer voltar. A pequena Pouso Redondo podia ser uma das cidades citadas na música do Biquini Cavadão, porque “ninguém pode ignorar o seu jeito de ser”, seus queijos e salames, sua gente simples que insiste para você não ir tão cedo. Rios, cachoeiras expostas, um tanto de gado gordo, um pouco de mata virgem, mais um registro que não se apagará.

Santa Catarina é de encher os olhos, e dá um medo de que a ganância e o a destruição vestida de progresso venham fazer disso tudo apenas uma lembrança dos velhos tempos, um quadro na parede branca. Volto à correria do dia-a-dia, à vida sem tempo, porque a tecnologia nos roubou, e em meio à tarde ensolarada, recortada pela janela do meu escritório, canto de fones nos ouvidos “Quero as tardes madrigais, que não estampam nos jornais”. As férias se aproximam, já fiz roteiros e abasteci o carro. Só falta tempo.



Escrito por Jura Arruda às 16h39
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