Jurandyces Arrudianas
   



BRASIL, Sul, Homem
Histórico
Outros sites
Jura no youtube
Jura no Myspace
Aninha
Arrudianas
Bem amargo
Casa de Paragens
Cidade Cultural
Clotilde Zingali
Coisas da Mata
Hans e Klaus
Joinville Cultural
Mostra Cinevídeo
Pancada de vento
Simdec
Teatro em Joinville
Tom Zé
Vídeo Livre
Zero Zero Setter

Votação
Dê uma nota para meu blog

Locations of visitors to this page
 


A louca da bíblia

Jura Arruda

Ela é baixa, talvez beire o metro e meio, tem a pele negra e alvos fios de cabelo sob o boné azul. Traz sobre o corpo arcado um casaco de lã para espantar frio, uma saia desce-lhe quase ao tornozelo e uma meia marrom sobe-lhe à canela. O sapato preto lhe cobre os pés cansados de perambular pela cidade. Em um dos ombros sustenta uma bolsa marrom com sabe-se lá que artigos e em cada uma das mãos, ela traz uma bíblia. Abre uma, ajeita os óculos e vocifera. Fecha. Abre outra e sussurra. Fecha. Entoa versículos e insanidades pelas ruas sem tomar conhecimento do noticiário, das greves, dos buracos nas calçadas. É uma senhora conhecida por seus berros. Pensa que prega ensinamentos bíblicos, ou que vai salvar o mundo com sua dialética confusa e sua mente palpitante. Tem muito a dizer e diz. Mas pouco se ouve o que fala.

Esses dias, eu aguardava na prefeitura minha vez de ser atendido, quando ela entrou. Com volume de voz menos alto do que de costume, pôs-se a falar. Ignorada por uns, ouvida por outros, ela não cessou durante os mais de 30 minutos que ali fiquei. Tentei ouvir o que dizia mas o máximo que pude entender foi algo sobre um homem e sua rapariga, enquanto a esposa estava em casa lavando roupa. Olhei-a nos olhos, esperando que ela reagisse ou toca-se comigo suas verdades. Ela não encara. Não olha nos olhos. Fala insanidades, mas não ousa olhar nos olhos de quem a ouve. É que os olhos podem sugar-lhe a certeza do que diz, quem sabe a razão que supõe ter.

Tenho encontrado muitas pessoas como ela. Não são loucos, nem carregam bíblias, mas estão cheios de razão e vociferam tanto quanto podem. No entanto, não conseguem olhar nos olhos e sustentar seus discursos vazios e, paradoxalmente, tão cheios de verdades. Andam pelo mundo empunhando teorias e certezas, mas não conseguem sustentar uma boa discussão. Pseudointelectuais, ervas daninhas, desastres sociais. Estão nas tevês, nas rádios, na internet, na calçada, ao nosso lado.

É discurso fácil defender a liberdade de expressão, mas num lugar onde o povo não está preparado para discernir, nem há coerência nas atitudes, toda forma de expressão é um risco. Poque há uma massa acéfala lá fora esperando por quem diga a ela como agir, que roupa usar, o que fazer e o que pensar. Um mundo dependente de líderes. Pior! Dependente de heróis. E mundo que depende de heróis não pode ser mundo ideal. Ainda mais quando heroísmo é atributo dado a qualquer um, desde que tenha sido vítima na vida.

A louca da bíblia, como é chamada a senhora que vi esses dias na prefeitura, tem a insanidade a seu favor, o resto deveria ter vergonha na cara.



Escrito por Jura Arruda às 18h05
[] [envie esta mensagem] []




Bem a metade

Jura Arruda

É meio-dia do dia primeiro de julho. É o centésimo octagésimo segundo dia de 2011. É exatamente a metade do ano. É sexta-feira, um dia em que a cabeça já estampa o sábado e os lazeres possíveis. Festas, aniversários, cinema, namoro, passeios com os filhos. Vivamos a expectativa do fim de semana nessa metade de ano, mas guardemos um espaço, pequeno que seja, na agenda, para voltarmos ao início do ano, lá pelo dia primeiro, ou antes disso, nas férias de dezembro e pincemos da gaveta ou da porta do guarda-roupa a lista que fizemos de promessas e de desejos. Não quero chatear você, mas deve haver mil promessas esquecidas ou adiadas. Está bem, você avançou um pouco, começou aquele curso de inglês e até se informou sobre o de violão. Mas a academia não passa nem perto de sua agenda, certo? Ainda mais com o frio que anda fazendo. Pipoca e filme na TV é bem melhor. Uh, se é!

Assim é o ser humano, tem rompantes de entusiasmo para momentos depois recolher-se à sua cômoda realidade. É tão fácil ficar parado, quando dar o primeiro passo requer o esforço de empregar energia para mover a perna. A grande maioria de nós forma uma massa que se molda pelas mãos do que se condicionou chamar de destino. Como diz aquela música, “Deixa a vida me levar, vida leva eu”. Parece até bom viver assim, não parece? E é mesmo bom, desde que você esteja satisfeito com você mesmo, sem finanças para resolver, sem quilos a perder, sem espelhos a lhe maltratar, sem ignorâncias a lhe envergonhar. Confesse, você não está tão bem assim, não é? Mas mudar, como havíamos planejado na alegria das férias de fim de ano é tão inconveniente no frio de julho!

A Clarice escreveu certa vez que “Só o que está morto não muda! Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco. Sem o qual a vida não vale a pena”. Mas não se aje. O risco da mudança, o medo do novo e o sofá quentinho nos impele à inércia e cá estamos nós, com as mesmas pendências dos últimos anos. Quase-mortos de tanto nada fazer. Ou você não reparou que os dias vão passando e nós, como máquinas, repetindo as mesmas ações, nos mesmos horários? Damos voltas sem sair do lugar. Compramos um ou outro bem, o que aparenta avanço financeiro; lemos um ou outro livro, o que aparenta avanço intelectual, mas continuamos os mesmos e mais velhos.

A Clarice também disse: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. E nós aqui tentando entender como a metade do ano já foi embora e não fizemos o que tínhamos prometido. Agora temos a outra metade para fazer alguma coisa ou para envelhecer tentando entender o porquê de não termos feito.

 



Escrito por Jura Arruda às 17h50
[] [envie esta mensagem] []


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]