Jurandyces Arrudianas
   



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Audição, olfato e memórias

Jura Arruda

A música é tema recorrente na minha vida, e consequência inexorável, nos meus textos. Chego a acreditar que música tem textura e sabor de tanta sensação que traz. Basta uns primeiros acordes entrarem pelo ouvido e sou remetido a um passado distante ou próximo e todos os cheiros e todas as cores e todos os sentimentos envolvidos lá estão, de volta a reviver em mim sensações.

Hoje pela manhã, preparamos a mesa para o café. A Bibi pediu para ver um desenho, mas achamos que não era o momento, queríamos que a música desse o tom e adornasse nosso café já esfumaçante. Anda frio em Joinville por esses tempos e a fumaça que sobe da xícara é dos mais belos quadros, ainda mais se emoldurado por uma boa música no ar. Música brasileira, preferência maior desse escritor, desfilando sobre a mesa de nosso café. De Leny a Legião, de Gal a Léo Jaime. Uma diversidade de texturas e sabores que ouvíamos enquanto passávamos a manteiga no pão ou emprestávamos doçura ao café.

Quando as primeiras notas de Índios surgiram, a Barbara comentou que a primeira vez que ouviu essa música fora numa viagem de volta de Caraguatatuba, litoral de São Paulo, que a música emoldurava as montanhas da estrada e ela nunca mais esqueceu. Desde então, cada vez que a voz de Renato Russo canta Índios, Barbara é remetida, numa viagem no tempo, à estrada de Caraguatatuba e suas montanhas.

Temos canções que encheriam mil discos a nos levar de volta no tempo. Como ouvir Noite do Prazer, do Cláudio Zoli e não ser remetido às visitas à Zona Leste de São Paulo quando contava meus 13 anos? Como deixar de sentir a brisa da mesma Caraguatatuba da Barbara, ao ouvir I Like Chopin na rádio? Eu deitado em uma das redes da casa do meu avô, com um rádio de pilha no peito, sentindo a brisa e vendo ao fundo as montanhas, talvez as mesmas que Barbara emoldurou com Legião. Nunca mais esqueci e certamente não haverá Alzheimer a me tirar este sabor.

Em um dos curtas que produzi, uma personagem paraplégica diz que daria tudo para ter as pernas de volta, talvez até a audição. Outra personagem, também paraplégica, diz que jamais faria isso, que quando mais nova a mãe a havia mandado escolher um idioma para aprender, e ela escolheu a música, idioma universal. O texto cabia muito bem à personagem mas, certamente, e poucos sabem disso, era trecho biográfico deste escritor qe se acostumou a repousar lembranças nas notas das músicas que ouve.

Termino a crônica. Johnny Alf entoa Ilusão à Toa e lá vai o Jura, tragado pela nostalgia do que viveu e que não voltará mais, exceto quando os acordes de uma música trouxer novamente as velhas sensações.



Escrito por Jura Arruda às 09h18
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Ele também morreu

Jura Arruda

Começou num beijo e foi sufocando até que ela acabou estrangulada. Ainda não era uma hora da manhã e o corpo dela tombava sem vida. O casal morava num condomínio fechado, num bairro bacana da cidade e tinha gêmeos. Diz-se que as discussões eram frequentes e que ele havia feito, dois meses antes, um boletim de ocorrência contra ela, dando conta de uma agressão.

Desta vez, ele não conteve a ira. Apertou o pescoço que outrora tanto beijara. Cala! Cala! Cala! Deve ter repetido à exaustão enquanto pressionava os dedos sobre a garganta da esposa. Ela calou e o silêncio lhe gritou aos ouvidos: olha o que você fez! Devem ter passados apenas poucos segundos até que ele recobrasse a consciência e visse a tragédia a olho nu e cheirando ainda a perfume. Os gêmeos talvez dormissem, talvez sonhassem algum sonho ruim. Tinham naquele momento os seus destinos mudados definitivamente, por força de um relacionamento fracassado, com desgaste maior do que o amor que sentiam um pelo outro.

O caso ocorrido em Joinville é eco de muitos casos iguais mundo afora. É humano. Como humano é o arrependimento e a dor angustiante de não poder voltar no tempo e afrouxar os dedos, e olhá-la nos olhos e abraçá-la e dizer “Eu te amo, pare! Não deixe algo ruim acontecer”.

Sempre tendi a olhar pelos olhos do culpado, por imaginar a dor do arrependimento a roer-lhe os dias, a pô-lo no inferno das horas intermináveis, da ausência cometida por ele mesmo e por ele mesmo sentida. Talvez por isso, tolo, já me deixei enganar por mais de uma vez, mas não consigo deixar de me condoer. Sofro de dor alheia e interminável e por mais que lamente a morte de alguém, pesa-me mais na alma a pena imposta ao culpado, não a da cadeia, nem da cadeira da morte, se essa houvesse no Brasil, mas a pena imposta pela consciência a lhe tragar a alma, a pô-lo em frangalhos, por ter jogado fora a vida dela, a sua e a dos gêmeos. Dela, irremediavelmente; Dele, estupidamente; dos gêmeos, negligentemente. Estes com mais chances de se recuperarem e seguirem seus caminhos, quiçá traçados antes do nascimento.

Volto a ele, ao marido, ao pai, ao homem que sem controles, acabou por ser desqualificado da sociedade. Acusado e julgado pela maioria das pessoas, vai ter que conviver com a tragédia que provocou, vai lamentar o ímpeto agressivo e os segundos que o transformaram de marido em assassino. Vai acordar todos os dias e olhar-se no espelho sem se reconhecer. Levará a tragédia dentro de si, sem poder livrar-se dela. E isso é tão triste quanto a morte. Ele a matou. Ele também morreu.



Escrito por Jura Arruda às 16h52
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70 Reais é tão pouco

Jura Arruda

 

Ontem gastamos setenta Reais em uma pizzaria. Parte da família reunida, muita conversa jogada fora, muita risada também. Para quatro adultos e 3 crianças, o valor até que foi baixo, como se comentou. E pensando bem, até que foi mesmo. Dividido entre os quatro adultos, o valor não chegou a vinte Reais para cada um. Uma mixaria! Fomos para casa satisfeitos, tomamos banho e dormimos muito bem. Hoje, os setenta Reais viraram cocô.

No Brasil, há 16 milhões de pessoas que vivem com menos de setenta Reais por mês. É a extrema pobreza. E há as que vivem com menos de cem Reais. Pobreza extrema também, e as que vivem com cento e vinte Reais. Com cento e cinquenta. Pobreza também. E isso nos faz pensar que o número de miseráveis no país é ainda maior que 16 milhões. E se forem só 16 milhões, já se contabilizam 32 Joinvilles! 32 cidades de médio porte sobrevivendo como dá (ou como não dá). Sem direito a um cinema, a uma pizza, a um médico. Estima-se que 300 mil casas no país não tenham nenhum tipo de ligação elétrica. Geladeira para quê? O governo lançou bolsas e mais bolsas com o intuito de reduzir a vergonha nacional, tem conseguido um pouco, e sei disso porque conheço pessoas que trabalham na área social e que me disseram que a demanda por cesta básica caiu de 52 para uma, nos último anos. Aqui em Joinville! Não sei como anda o Nordeste, que abriga 60% dos extremamente pobres! Outra informação que tive é de que quase a metade dos miseráveis vivem no campo e que a miséria não discrimina homens e mulheres.

Imagine-se, leitor, recebendo setenta Reais para almentar-se e suprir-se de outras necessidades básicas como vestir e dormir. Imagine agora que esse valor não é só para você, porque você tem mulher e filhos. Você queria sentir-se digno, mas anda repleto de indignação, porque a dignidade não cabe nesta parte que lhe cabe deste latifúndio. Nem resfriado você pode pegar e nem sonho você pode ter. 16 milhões é muita gente! E há tanta gente preocupada em emagrecer, fazendo dietas ridículas, se preocupando com problemas ridículos e comprando supérfluos demais.

O jornal me diz que sou feliz e a consciência me pesa. Não tenho o dom dos franciscanos porque aprendi os prazeres da mesa farta e da vida boa. Aprendi a puxar a sardinha para a minha brasa, porque quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro. O que doi em mim, doi mais do que o que doi em você, o mundo me fez assim. Por mérito ou por sorte, tenho um salário razoável que me permite uma extravagância de vez em quando; um cinema quando preciso de uma hora e meia para esquecer os percalços da vida; uma pizza quando quero jogar conversa fora e dar muita risada também. Afinal, 70 Reais é tão pouco.



Escrito por Jura Arruda às 14h16
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