Jurandyces Arrudianas
   Bela, santa, nossa!

Jura Arruda

“Eu amo mesmo sem saber, sem ter notícia alguma de vocês. Invento a vida nos lugares que acho que nunca vou conhecer”. Começa assim a música do Biquini Cavadão que canta a beleza do que simples se fez por natureza. Pequenas cidades, sumidouro dos estresses diários, vida in natura, doses essenciais. Fora do (Google) Mapas, ocultas no GPS mais modernão. Costa, litoral, serra, vale. Se vale? Vale muito. “E não me importo se o progresso é apenas uma antena de TV, pois o que quero ver é mais, além de carros e sinais”.

Na semana passada percorri inúmeras cidades de Santa Catarina, esse estado de graça, esse éden pós-moderno que eleva a alma de quem cruza suas estradas. Deixei um tanto da minha alma cansada por lá e hei de voltar, hei de ir mil vezes, hei de conhecer todas as pequenas cidades de Santa Catarina, antes de sonhar com as pirâmides, Coliseu ou cidades submersas. Você, meu enraizado leitor, não tem a menor ideia do que tem de bonito a poucos quilômetros daqui.

Fui ao sul, Laguna, Tubarão, Urubici, Imbituba, Braço do Norte, São Ludgero e, benza Deus! Santa Rosa de Lima. Dois mil e cem habitantes, quedas d’água, rafting, águas termais, água mineral na torneira! Um jeito simples, um clima de curar tuberculose e a sensação de que não se pode morrer sem aproveitar muito disso tudo. Minhas retinas registraram e eu não vou esquecer as encostas da serra geral.

Menos ao sul, conheci também o alto vale do Itajaí, onde as estradas não são duplicadas e o passeio ganha certa cara de preocupação, mas onde as paisagens e o povo acolhedor fazem você esquecer que passou algumas horas ao volante, e mais, fazem você querer voltar. A pequena Pouso Redondo podia ser uma das cidades citadas na música do Biquini Cavadão, porque “ninguém pode ignorar o seu jeito de ser”, seus queijos e salames, sua gente simples que insiste para você não ir tão cedo. Rios, cachoeiras expostas, um tanto de gado gordo, um pouco de mata virgem, mais um registro que não se apagará.

Santa Catarina é de encher os olhos, e dá um medo de que a ganância e o a destruição vestida de progresso venham fazer disso tudo apenas uma lembrança dos velhos tempos, um quadro na parede branca. Volto à correria do dia-a-dia, à vida sem tempo, porque a tecnologia nos roubou, e em meio à tarde ensolarada, recortada pela janela do meu escritório, canto de fones nos ouvidos “Quero as tardes madrigais, que não estampam nos jornais”. As férias se aproximam, já fiz roteiros e abasteci o carro. Só falta tempo.



Escrito por Jura Arruda às 16h39
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   Pessoas que nos tiram do sério

Jura Arruda

Foto: www.imotion.com.br

 

Na maior parte do tempo sou calmo. A maior parte do tempo não é o tempo todo. Certas situações têm o poder de alterar algo no funcionamento do meu sistema nervoso e lá se vão chutes em almofadas e pedras na rua. Geralmente, crio cenas ridículas nesses momentos e repouso na vergonha sem fim. Mas nem só situações impõem constrangimentos, pessoas também têm o poder de me tirar do sério, de fisgar o pior de mim e me exibir como uma foto de pescaria. Felizmente são poucas. Tão poucas que é possível desviar delas. O problema é quando aquela pessoa que lhe tira do sério, também lhe encanta. Aí meu amigo, se você insiste na convivência, sua qualidade de vida vai quase a zero e os nervos a frangalhos. Mas pior ainda é que depois de tudo passar, você olha para essa pessoa e pensa: como sou estúpido!

Sentir-se estúpido é de lascar. Acreditar que é possível estar ao lado de uma pessoa que nos tira do sério é de doer. Nossa, como dura nada a harmonia nesse tipo de relação. E como você se sente estúpido! Cada vez me convenço mais de que o mundo é uma sucessão de eventos a partir de diferentes energias, todo o resto somos nós, bonecos, materializando os impulsos que se chocam por aí.

Hum, falando assim, parece até que sou um chato esotérico, mas não sou. Ok, nem todo esotérico é chato, mas tem uns! (Sim, esqueci o arquivo do politicamente correto em outro computador, e daí?) Voltando às energias do mundo e a calmaria que eu aparento, sinceramente eu não consigo entender como se podem estabelecer níveis tão diferentes de energia.

Às vezes, você olha para alguém e, de cara, já gosta. Quando conversa com essa pessoa então! Percebe que gosta mesmo. Gente fina e coisa e tal. Com outras pessoas, a primeira impressão é ruim e todo o resto também.

Mas o maior perigo, incompreensível leitor, indecifrável leitora, é você encontrar uma pessoa cujas energias estão em profusão, gerando raios de todas as intensidades para todos os lados. É melhor não ir com a fachada da pessoa. Porque se você, de cara já gosta, vai arrumar uma confusão tremenda no momento em que as energias estiverem em níveis diferentes, se o positivo e o negativo se tocarem, você vai deixar de ser o calmo que aparenta. Uma face sua, horrível, virá à tona e isso é bem ruim. Ando um tanto incomodado com essa minha outra face. Eu, que nunca me permiti um porre homérico por não gostar de perder o controle, ando extremamente chateado por estar sendo tão frágil diante de pessoas que me tiram do sério. Dose, viu! Um uísque por favor!

 



Escrito por Jura Arruda às 18h19
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Jura Arruda


Foto: bibliotecajoanina.uc.pt

 

Eu conheço a solidão e suas faces. Ando a encará-las novamente. Oscilo entre a solidão que arrebata e a que ameniza. Tenho pólos. Aprendi que nas extremidades é que se sente e se domina. Mas o equilíbrio me derruba. Sou imersão. Corro tantos caminhos e me perco, e me encontro, e sou esquinas. Dos amores passados, trago a vergonha de não tê-los ainda; do amor que virá, vislumbro a ventura do fim da busca. Achei que estava bom quando comprei um fusca e aquela moça veio morar comigo. Mas a moça partiu... Ou eu parti? Virei solidão que dói. Não muito. Paradoxo! Doeu menos do que o amor que depois veio. E era tanto sentir, tanto sentir, que dava medo do tanto que se podia amar. E de tanto amar, acabou.

O Oswaldo falou que há outra abordagem da solidão. Disse que além dessa que a gente jura que não vai aguentar, tem aquela boa. E eu digo que boa é aquela que se deseja porque se percebe que a pessoa mais importante não é a que partiu. Bom é querer o espaço aberto entre o agora e o daqui a pouco para sentir brisa e vento. Bicicleta, que o fusca já era. Carro de luxo que virá, virá? Pra sonhar não precisa dois. Bom de estar só é sonhar. E o horário das refeições e a liberdade do cardápio e a música que se escolhe e o silêncio.

Falando sério, estar só, quando demora, é um saco! Querer estar só é querer só por um momento. Ninguém quer estar só para sempre. Ninguém quer. Você quer? Conte-me como. Mande e-mail, carta ou convide para um café. Vamos propor essa discussão? Escreva, comente aqui ou no blog: Quanto de solidão cabe na gente antes de querermos acabar com a solidão? Você sabe o limite? Façamos esse diálogo porque ando meio cansado de monólogos. Hei, você me lê? Alguns escritores dizem que escrever é um ato solitário... Sim, é. Alguns dizem que ler é um ato solitário... Sim, é. Quanta solidão cabe na página deste jornal? A notícia aí de cima falou com você? Esse texto fala com você? Cadê a expressão no seu rosto? Eu não vejo.

O fusca se foi. Carrinho pouco mais novo chegou. A bicicleta está na garagem murchando os pneus. Meus amores passados ainda trago na lembrança, uns me pesam nos ombros, outros me inundam o peito. Outros, retratos, estão como se não estivessem. Não quero nenhum deles mais. A solidão anda me caindo bem ultimamente. Até quando? Até quando a gente pode desejar estar só? Até quando a gente pode gostar disso? Quando o sorriso vai virar careta e a carência nos cegar? Quanto, meu bem resolvido leitor, minha mais do que humana leitora? Quanto da boa solidão nos cabe antes de não cabermos mais em nós? Quanto há de pesar no peito a ausência daquela sua presença? Quanto há de estar presente essa sua estúpida ausência, essa ausência, esse orgulho? Dizia e estava certo, o Daniel: Somos todos sóis sós.

 



Escrito por Jura Arruda às 11h33
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   Impressões

Jura Arruda

Chega ao fim, com esta crônica, a trilogia da Conferência. E nem era pra ser trilogia, mas uma série de equívocos fez de palavras bolas de neve. A começar pelo título da primeira crônica que deveria ser “Cultura e Conferência, por um Idiota”, e não “do Idiota”. Bem, muitos não entenderam a proposta do autor ao criar um narrador fictício, e o que era pra ser uma figura de linguagem virou provocação. Na segunda crônica, impressões sobre a importância da Conferência e a necessidade de clareza nas informações.

Agora, depois de participar da Conferência de Cultura... Sim, estive lá durante o fim de semana inteiro e até emiti opiniões, trago as impressões do que aconteceu. Foram 666 (Que número!) participantes da Conferência, que à parte o erro estratégico de realizá-la num espaço intimidador para a população da periferia, as dependências do Teatro Juarez Machado e do Centro de Eventos Alfredo Salfer, contou com participação de diversos segmentos da sociedade civil. Vimos debates acalorados, propostas interessantes e algumas risíveis; risíveis, mas especialmente interessantes, por dar-nos a medida de nossa imaturidade política e cultural.

Nem só debates. Um acordeonista fez seu instrumento falar, uma menina foi liricamente engolida por um Barão, outros dois acordeonistas animaram a manhã de domingo. Da Conferência, mil propostas, ou quase, foram apresentadas para suprir necessidades sociais e culturais de Joinville. Um Sistema de Cultura Municipal está em processo de criação, e estará ligado aos sistemas estadual e federal para que o repasse de verbas seja efetivamente usado em cultura e de acordo com as necessidades regionais. Não. Nem tudo que foi proposto será realizado. A Conferência foi apenas o primeiro passo, foi a sociedade civil mostrando seus desejos a partir da orientação da Fundação Cultural. As propostas serão colocadas num Plano de Cultura e levadas à Câmara para aprovação. Se o que foi proposto for realizado pelos gestores de cultura, Joinville estará, quiçá irreversivelmente, nos níveis das esfuziantes cidades européias. Não esperemos tanto, mas fiquemos atentos ao que será possível.

Houve falhas, certo que sim, mas é apenas a segunda conferência, os funcionários da Fundação conseguiram fazer com que as metas fossem cumpridas e os horários também; a sociedade civil foi propositiva e crítica; e o evento, ainda que apenas a primeira etapa, a etapa do pedido, cumpriu seu objetivo, o de promover a discussão. Daqui pra frente, as coisas estarão nas mãos dos homens públicos. Você lembra quem recebeu seu voto? Pois é dele que você vai cobrar. E para finalizar, se a quantidade de participantes foi 666, continuo afirmando que quem não acredita no valor da Conferência é que é mesmo uma besta.



Escrito por Jura Arruda às 17h25
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