| |
por mais clareza
Jura Arruda 
Solidão. Era sobre isso. O texto está até pronto. Mas como a crônica da semana passada rendeu discussão e alguns e-mails mal-educados, volto ao tema. Falava, na última crônica, sobre a Conferência Municipal de Cultura. Astuto leitor, nenhum gestor público pode achar que está bom. É uma premissa. Ainda que Joinville figure no ranking do Ministério da Cultura como o sexto município em Índice de Gestão Municipal em Cultura, não dá pra dizer que está bom. Veja que um dos quesitos para isso é a presença do Conselho de Cultura, e o Conselho daqui, pelo que levantei, não cumpriu seu papel, a ponto de uma comissão ter sido criada para analisar as diretrizes da Conferência de 2007. Hei, índice! Hello! Mas sou um otimista. Acredito que as coisas estão melhorando. Vale dizer que sempre estive ao lado dos socialistas, da esquerda, do velho PT e vibrei com a chegada de meus companheiros de ideologia ao poder. No entanto, o PT, ótimo na oposição, e esperança de mudança por seu histórico de luta, descobriu que não existe mágica em gestão pública. As mudanças, ainda que venham, estão se arrastando e cansando quem espera. Voltemos à Conferência: a Fundação diz que quer ouvir a sociedade para promover as ações necessárias. Nobre! Mas, por que, Fundação, a senhora não informa com clareza? Por que não dialoga com a sociedade? Precisamos de orientação. Fale-nos de sua luta, obstáculos, conquistas e mostre-nos os caminhos. Não crie tantos filtros, não complique tanto a comunicação. Depois da reação à minha última crônica, e na condição de jornalista, entrei em contato com a Fundação Cultural para pedir acesso a um documento (público) com as diretrizes da primeira conferência (2007) e as realizações a partir dela. Quase tive que implorar para ver o tal documento. Não o vi. Recebi um e-mail com algumas propostas implantadas e só. Notícia boa? Ampliação dos recursos financeiros destinados ao SIMDEC, de 2% para 2,3%; descontos no uso de equipamentos e espaços públicos; criação de um Plano Municipal de Cultura. Há coisas sendo feitas e isso justifica a participação na Conferência, mas por que tanto segredo? Que atitude antidemocrática é essa? Bem, um novo, mas nem tanto, Conselho tomará posse neste fim de semana e ficará responsável por transformar as propostas num Plano Municipal para que a Câmara aprove e o governo execute, em até 10 anos. Oh, glória! Mas, aqui, no cantinho da página, Dona Fundação, é muito pouco viver de editais e propostas dos cidadãos, é preciso implantar bons projetos, de formação técnica e profissional, principalmente. Ah, e clareza, a senhora anda carecendo de transparência.
Escrito por Jura Arruda às 11h12
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
A cultura e a conferência do idiota
Jura Arruda 
N.A.: Nesta crônica, o narrador é o idiota do título, ainda que alguns leitores do jornal impresso tenham confundido a opinião do narrador com a do autor. O pensar é livre. O seu também. Boa leitura.
Pare de insistir. Não vou e fim. Isso é coisa pra trouxa. Conferência pra mim é controle de qualidade no chão da fábrica. Já disse que não vou. Ah, tá bom, você quer insistir? Pois então diga o que você tem pra dizer, fala, sou todo ouvidos... Decidir o quê? Quem decide alguma coisa nessa porcaria de país? Direcionar verba? Que utopia, camarada. Verba é no máximo prima de advérbio. Tipo, pouca verba, tá ligado? A verba nunca dá. Proponha o que você quiser. Vai vir pela metade. Discutir cultura? Com quem? Pelamordedeus! Artista só quer saber do seu umbigo. Tô fora, não vou, já disse, e chega. O quê? 2005? Ah, a primeira Conferência foi em 2005? Deve ter funcionado que é uma beleza! Deixa quieto, na próxima eu vou. Prometo. Quem sabe até lá o Centro de Eventos já deu lugar para um estacionamento com um elevado por cima e aí eu vou poder brigar por um novo elefante branco pra cultura. Não. Não é viagem. Olha só as promessas de campanha! Aliás, não olha não. Que promessa de campanha não é promessa, é discurso. Não vou nessa tal de conferência! Até porque a cidade está uma beleza. Tem três teatros, todos no centro eu sei, mas são três teatros! Povão do bairro não vai de besta que é. Tem museu a dar com pé, tem shows, tem dança, tem praça e tem cinco... Ó, todos os dedos dessa mão! Tem cinco cinemas! Duvido que alguém vê cinco filmes por mês. Tem cinco cinemas! Fora os filmes que passam de graça na Cidadela e no Bom Jesus... Ah, sei lá! Tudo filme estranho, sem uma perseguição, sem uma bomba, sem um fim do mundo. Mas tem, oras! Quem precisa, nesta cidade, de conferência? Só se for conferência pra conferir a agenda das baladas, a lista de convidados, a vida do outro. Quem ainda acredita nessa baboseira toda? Sabe? Eu quero é fazer meus espetáculos, apresentar meu trabalho, quero a poesia de viver da arte. Nada de Conferência! Que isso só é bom para burocráticos. O quê? Quer falar? Fala... Quer dizer o quê? Como assim ‘gente como eu’? Que culpa eu tenho? Nunca participei dessas coisas. ACINEJ, AJOTE, AJOLE, AJART, Haja nome pra tanta associação! Nunca! E não vou. Mas o que você ia falar mesmo? “Não dá pra ser só artista?”, “É imprescindível participar das discussões?”, “Quem faz e quem consome cultura deve participar da Conferência de Cultura, que acontece na cidade agora em outubro?”, “O futuro do cinema, do teatro, da dança, de tudo depende do que um grupo reduzido de umbiguentos vai propor?”, Pela última vez: não vou à conferência nenhuma. O governo que faça sua parte, eu já tive que sair de casa num feriado pra votar nesses imbecis! Não vou ficar propondo o que eles é que deveriam saber. Fui.
Escrito por Jura Arruda às 14h44
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
As coisas que eu deixei
Jura Arruda 
Foto de Lar Dog (http://lar-dog.deviantart.com/art/Long-Play-115238094) Vou tentar traduzir isso, espera aí... Bem, é como abrir a torneira. Não. O registro. É como abrir o registro. Você senta diante da página em branco e os sons do ambiente vão diminuindo aos poucos, até que você entra de vez na página e o texto escorre pelos dedos virando coisa dita. Mal ou bem... Dita. Acontece que meu trabalho é escrever e estou ficando bom nessa coisa de tapar os ouvidos para os sons do ambiente. Para facilitar, porque às vezes conversas alheias falam mais alto do que o pensamento, eu plugo meus fones de ouvido, seleciono algumas músicas e o texto acontece. Essa tarde, ao preparar um material para a imprensa, dando conta das discussões e votações na Assembléia Legislativa, eu selecionei um álbum aleatório nos arquivos do computador e a partir daí, se deu uma situação insólita, porque a voz de Roberto Carlos começou a entoar canções antigas, levando este escriba a um passado distante, nos idos de 70, quando ele ouvia, ao lado de sua mãe, nas ondas médias da Rádio América, o Rei entoar seus romances. Quando não era no rádio, era na velha vitrola, onde o delicioso chiado de um LP preenchia a sala enquanto mãe e filho faziam coro em canções que falavam de baleias e de distâncias. Uma porcentagem absurda nos aumentos sugeridos pelo governo é a tônica do texto, mas que culpa tenho eu, me diga amigo meu! Será que tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda? O deputado argúi, vocifera e tem razão. Meu passado me chama em 33 rotações. A voz é do Roberto, a imagem é da minha mãe que prepara o feijão e, repentinamente, interrompe a cantoria para pedir uma colher ou a escumadeira, e depois retoma com a voz mais materna do mundo, Eu só não quero cantar sozinho, eu quero um coro de passarinhos. Quero meu filho pisando firme, cantando alto, sorrindo livre. A razão e o sentimento disputam espaço no meu peito. O release precisa ficar pronto, e meu passado me fita. O escritório está com grande movimentação, o telefone toca, alguém atende, estou no último parágrafo do texto e meus olhos marejam pela terceira ou décima vez. No meu tempo de menino, minha mãe fazia dueto com Roberto Carlos na cozinha e eu morria de dores pelos amores que nem tinha, mas já sabia doer porque me entregava sem medida às letras daquelas músicas. O texto ficou pronto, vai por e-mail e eu volto para as coisas que deixei. Roberto e minha mãe ainda cantam, eu retiro o fone e a partir de agora, qualquer estrada vai me levar de volta ao menino que fui. O meu coração aqui vou deixar, não ligue se acaso eu chorar, mas agora, adeus.
Escrito por Jura Arruda às 20h16
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Não mais que de repente
Jura Arruda  Foto de Enéas Lopes, da Exposição "Gotas"
Que a morte é uma certeza, não se discute. Mas ela anda com uma mania irritante de nos pegar de surpresa. Vem pelas costas e dá as caras num átimo, num flash. Do tipo que não dá margens a qualquer reação. Ela simplesmente decide passar uma temporada por aqui e vai recolhendo almas nas esquinas. Desavisados, Nilo, Celso, Fátima e Enéas embarcaram na carona da inexorável, e cá estamos nós, quatro vezes mais feridos. Quatro vezes mais vazios. O Nilo faleceu há mais tempo, talvez um mês e meio. Foi meu primeiro professor de teatro, foi quem me cedeu o primeiro papel principal dos palcos em que pisei. Soubemos de sua partida semanas depois. Era novo, devia ter passado dos quarenta. Mas caminhava para a morte com certa urgência, encontrou-a. A Fátima era uma dessas pessoas cuja alegria é a principal marca. Sempre agitada e sorridente. Costumávamos nos encontrar frequentemente e ocasionalmente. Frequentemente nos eventos culturais da cidade, ocasionalmente nas esquinas do centro da cidade. Passava dos 40; talvez dos 50; parecia ter 30. À Fátima fiquei devendo uma visita. “Vá lá em casa! Vamos combinar um almoço, uma janta” e eu sempre dizia vamos sim, Fátima, vamos combinar. Nunca combinamos. Um dia sua pressão subiu e um aneurisma interrompeu sua agenda. Semana passada, o Celso se foi. O pandeiro do Entre Amigos resolveu aceitar o convite dela. Não sei sua idade, mas parecia transitar entre os 40 e 50 anos, ainda que eu achasse que não tinha mais do que 35. Não éramos amigos de fato, mas ele era uma dessas pessoas que você conhece e que acha que estará sempre lá, nos seus sábados, nos seus choros e serestas. Não. Não estará. Quarta-feira, noite chuvosa. O telefone toca e a mensagem rasga como uma lâmina no estômago: o Enéas morreu. Puta merda! Como? Não pode! Essa é a reação. O Enéas, eu conheci nos idos de 90, no La Cascina, se não me engano, o famoso restaurante da Rua das Palmeiras, que migrou de endereço, mas manteve os encontros, com as portas sempre abertas para as apresentações teatrais, musicais, poéticas, gastronômicas. Formamos, sem querer, um grupo de 23 pessoas. Dois paranaenses, os outros paulistas. Não que quiséssemos criar um grupo fechado, mas as afinidades nos uniram e, sempre nos encontrávamos ao redor de uma boa mesa. Recentemente, o Enéas redescobriu a fotografia e clicou com muita sensibilidade a história recente da arte em Joinville. E gotas! Ele me mostrou a beleza das gotas. Mas quarta, ele sentiu-se mal, foi ao hospital e ela estava lá. O abraçou e o levou de nós. De repente, não mais que de repente.
Escrito por Jura Arruda às 10h55
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
| |
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
|
|
|