Rebentação
Meu amor é rebentação. Sou maré cheia jogando-me contra o rochedo imperturbável que é você. Sou água do mar, sou líquido tátil. E lanço-me aos recifes de corais, tão bonitos quanto inertes. E vem o tempo de maré vazante, quando canso de arremessar-me contra seu peito duro, seu jeito de rocha, irredutível. Eu que sou movimento, agora vou seguir ao encontro de um rio onde certamente encontrarei águas doces e profundas, e vou misturar-me e compartilhar a ventura de poder mover-me. Estou levando certo gosto de você, rochedo triste. Lambidas que lhe dei. E talvez um dia eu volte, mas há de ser num dia de calmaria, para não me arrebentar mais em suas rochas. Vou lamber-lhe com tranqüilidade, sem desejar que você se molde aos meus movimentos. Sim, talvez eu volte só para roubar-lhe um gostinho, e partir mar denso, como sempre, porque meu sentimento flui e eu não posso represá-lo, adeus”.

Vasculhei arquivos antigos e deparei-me com textos que havia escrito mal lembro quando e com sentimentos que mal lembro por quem. Um deles, o texto acima, com o aparentemente revelador título “rebentação”. Antes que você pense que tive na juventude os mesmos quintais e mares de Neruda ou Caymmi, revelo que nunca fui homem litorâneo, que não era hábito meu recostar-me num rochedo a ver rebentações, marés, embarcações. Toda imagem de mar que tenho vem de compartilhar visão alheia, como a de Neruda, cujo Chile é todo extensão marítima, de Dorival Caymmi, cuja praia é quintal de sua vida ou de Tom e Vinicius que ao lado de seus cachorros engarrafados viam garotas e Ipanemas passar diante deles. Eu apenas costumava passar três dias por ano em Caraguatatuba, litoral de São Paulo quando, invariavelmente, chovia. Meu contato mais próximo com as coisas do mar se deu após minha vinda para Joinville, onde o litoral, que maravilha! Fica a menos de 30 minutos da cidade, sem que seja preciso encarar engarrafamentos na Anchieta ou na Imigrantes.

Foi em Barra Velha que tive meu primeiro contato com os pequenos barcos pesqueiros, com as pedras lambidas pelo mar, com a ressaca do mar a querer encontrar-se com a lagoa, amor antigo; depois,em São Francisco do Sul, onde me deparei com o lindo visual do morro da Prainha e sua vista para a Enseada, a Praia Grande e um horizonte a perder-se até a África. E o texto acima? Pois é, não nasceu de minhas lembranças do litoral catarinense, nem das férias em Caraguatatuba. Nasceu de um sentimento juvenil e se transformou nessa imagem de rebentação. Então escrever é isso? Quanta enganação!
O Santo Protetor
Evilásio entrou no ônibus com o pé direito, sentou no banco da janela, fez o sinal da cruz, ajeitou a camisa, recostou a cabeça e fechou os olhos. Abriu e viu que o movimento não era de partida do ônibus, mas dos 115 quilos de um homenzarrão que sentou ao seu lado e-que-postou-se-a-falar-sem-parar-que-evilásio-quase-surtou. Sem floreios, Evilásio levantou e sentou em outro banco. Respirou fundo, recostou a cabeça e fechou os olhos. Abriu e viu um rapaz magro que o tocava insistentemente. Não disse nada o inconveniente, apenas entregou-lhe um papel. “Trabalho como vendedor e gostaria que me ajudassem, comprando um colar de Santo Protetor. Deus recompensará aquele que fizer o bem na terra. Muito Obrigado, bom(a) amigo(a). Apenas R$ 1,00”. Nossa Senhora Rainha da Paz olhava para baixo com olhos pidões. Evilásio sacou uma nota do bolso e entregou ao rapaz, que olhou para fora e com os cinco dedos da mão direita para baixo, indicou que chovia muito. Evilásio concordou. Depois, com a mesma mão em concha sobre a boca sinalizou que tinha fome. Evilásio balançou a cabeça entendendo e olhou para o Santo Protetor que carregava nas mãos. No verso, uma espécie de colar com a imagem impressa na madeira. Evilásio guardou-a no bolso da camisa, recostou-se e fechou os olhos.

Abriu e viu Santo Expedito a olhá-lo com insatisfação. “Você sempre recorreu a mim, Evilásio! O que aconteceu? Sua fé anda tão abalada que precisa de outro santo protetor? Evilásio retirou Nossa Senhora Rainha da Paz do bolso e viu que ela estava com cara emburrada. A imagem descolou-se do papel e começou a falar com ele. O homem olhou para os lados a fim de verificar se alguém assistia àquilo. “Deixe Expedito reclamar, ele sempre faz isso, dor de cotovelo”! Mal terminou de falar, a santa olhou para o lado e, num átimo, colou-se ao papel. Evilásio não teve tempo para pensar. Acidente! Chocou-se contra o banco da frente e desmaiou. Quando abriu os olhos, a perna estava presa e a água invadindo o ônibus; fechou os olhos e pediu ajuda. Expedito apareceu sentado na lateral do ônibus e balançou a cabeça negativamente. “Agora você me chama, é? Peça pra Nossa Senhora”. A santa saltou do papel e foi parar ao lado de Expedito. “Não se aflija, meu filho. Deus sabe o que faz. Feche os olhos e reze” Santo Expedito gargalhou “Feche os olhos e reze? Isso é o melhor que você pode fazer”. Não se meta, Expedito. Não se meta”!

A água subia, Evilásio sentiu respingos em seu rosto e acordou. A chuva entrava pela janela. Ele fechou o vidro e segurou o rapaz pela camisa: “Troca pra mim? Nossa Senhora Rainha da Paz por Santo Expedito?
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