| |
Relações fecundas
Jura Arruda 
Cada ser humano é um óvulo. Quisera me abster das palavras e deixar você pensar e discorrer sobre isso, mas não posso. Ainda que no decorrer dessas linhas empobreça-se o tema, hei de concluí-lo, ou melhor, prolongá-lo, que a verdade não se encerra num escrito, nem se encerra por meio algum. Creio que não. A verdade, dizia um poeta alemão, muda com o tempo, a moral, a mudança do próprio homem e de sua visão. Pois, vivemos a renascer a cada verdade estabelecida ou ideia apresentada. Porque ideias, como espermatozóides, chegam-nos aos milhões a cada palavra dita, a cada ação, reação ou gemido. A convivência humana mais gera do que faz morrer. Isso! Mais gera do que faz morrer. Veja só quantas verdades acha que tem esse cronista! E para cada verdade, ele há de ter mil mentiras incrustadas em seu velho útero, e que se disseminam também. Eu disse útero? Ser humano é feminino, a língua portuguesa se enganou. E vida, feminina também, é exercício de receber, fecundar e doar. Ou doar-se. Mas nem tudo que se doa é terno, nem tudo que fecunda é sadio, nem tudo que se relaciona é integração. Há úteros secos, palavras estéreis e há, pois, o que é, o que pode ser, o que foi, o que não foi e o que já era. Mas afirmo que cada ser humano é um óvulo. E o amor? Vejamos, um amor dolente pode fecundar ódio ou tristeza, certo? E tanto pode gerar o desejo de nunca mais, quanto a gana de revivê-lo. Rega-se para saber. Um encontro casual pode deixar marcas indeléveis, um amor eterno pode se perder no próximo, o silêncio pode gerar gritos e gritos podem gerar manhãs silentes. Tudo no mundo é fecundo. E nada na vida é infinito além do que possa durar. Foi Vinícius que fecundou isso em nós. Fecunda-se por palavras, por imagens, pelo cheiro. O sol do meio-dia que reflete nos cabelos vermelhos daquela moça parece sol de fim de tarde. Seu andar parece notícia alvissareira em tarde nublada. Semeia na réstia da luz, em tantos quantos a veem, a esperança de possuí-la, a angústia de não tê-la, poesia e lamento. Se nada disso, fecundada está uma lembrança da moça de cabelos vermelhos a passear no sol do meio-dia. Fúteis mentes férteis! O amor que termina, a briga sem razão, o abraço, o amasso, a primeira vez, o último beijo, a troca de olhares, a troca de palavras, o esbarrão na calçada, a gentileza, a sutileza, o crime, o filho que nasce, o filho que não nasce, o sonho e tudo que no ser humano é comum e carece de dois tem o poder de fecundar em humanos o que humano pode ser. Nem sei se era isso que eu queria dizer. Nem toda mentira é oposto da verdade Nem todo texto fecunda. Escrever também é masturbar.
Escrito por Jura Arruda às 11h58
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
O pecado e a natureza
Jura Arruda  Foto: efisica.if.usp.br
O Invocado foi de novo para a oficina. Cheio de birra, quando diz que não, não há quem o tire do lugar. Voltei a pegar ônibus. Como eu andava distante! Como o carro nos isola e não percebemos. Não é a vida que passa rápido, é a paisagem no parabrisa que voa. No ônibus, dividimos o ar, o espaço e um breve momento em que caminhamos todos na mesma direção. Ouve-se a notícia do dia no diálogo dos vizinhos, o homem que reclama do chefe, a garota que encontra a amiga, o menino que devora um pacote de pipoca, venturas e desventuras, fragmentos de realidade, pessoas vivas que andamos substituindo por personagens herméticas da tela plana. Deleito-me a olhar a beleza e devorar tanta fauna. Nas linhas dos coletivos, a cidade mostra sua cara, suas pernas, suas ancas. É lugar onde um coração sensível é capaz de apaixonar-se rápida e diversas vezes. Comportado leitor, fidelíssima leitora, chego à conclusão de que se La Donna è Mobile, anche l’uomo. E piu! Não dá pra não ser volúvel, não dá pra não desejar essa vida cheia de formas, esse desfile, isso tudo que os olhos já não enxergavam mais porque viam apenas placas de trânsito e faróis. Não existe pecado. Existe natureza. O amor romântico, a promessa de amor eterno e todo sonho cinematográfico que alimentamos sobre almas gêmeas é criação do século XII que, de tão bela, acompanhou o imaginário popular séculos depois. Mas é só beleza. Monogamia é apenas um sonho alimentado por finais felizes, e já sabemos, eles terminam antes do fim. O que vem depois é vida cotidiana, envelhecimento e cansaço. Ah, não fossem as regras morais e os credos! Volto ao que vejo no trajeto entre minha casa e o centro da cidade. A moça compenetrada a ler um livro; o senhor absorto a olhar para fora, mas que no fundo olha mesmo é para dentro; a senhora que mexe mais uma vez na sacola para conferir qualquer coisa. Que música ouve aquela menina com o fone? Ela me olha e me faz ver: eu a estava olhando mais tempo do que devia. Baixo os olhos. Pés! Ah, os pés que o verão revela! Unhas arredondadas, quadradas, pintadas ou não; dedos juntinhos ou livres numa sandália rasteira; pés claros, morenos, vivos, que exibem certamente as personalidades de suas donas. Minha expressão corporal parece fruto de tristeza, mas não é. Olho para baixo porque lá está bonito, porque lá há pés e não pedais, pés das moças pelas quais me apaixonei e que talvez não veja novamente porque voltarei a me isolar dirigindo o Invocado. Mas hei de dizer que não há pecado nesse mundo, há natureza humana, há moças bonitas e há traição em não amá-las.
Escrito por Jura Arruda às 16h47
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Bela, santa, nossa!
Jura Arruda 
“Eu amo mesmo sem saber, sem ter notícia alguma de vocês. Invento a vida nos lugares que acho que nunca vou conhecer”. Começa assim a música do Biquini Cavadão que canta a beleza do que simples se fez por natureza. Pequenas cidades, sumidouro dos estresses diários, vida in natura, doses essenciais. Fora do (Google) Mapas, ocultas no GPS mais modernão. Costa, litoral, serra, vale. Se vale? Vale muito. “E não me importo se o progresso é apenas uma antena de TV, pois o que quero ver é mais, além de carros e sinais”. Na semana passada percorri inúmeras cidades de Santa Catarina, esse estado de graça, esse éden pós-moderno que eleva a alma de quem cruza suas estradas. Deixei um tanto da minha alma cansada por lá e hei de voltar, hei de ir mil vezes, hei de conhecer todas as pequenas cidades de Santa Catarina, antes de sonhar com as pirâmides, Coliseu ou cidades submersas. Você, meu enraizado leitor, não tem a menor ideia do que tem de bonito a poucos quilômetros daqui. Fui ao sul, Laguna, Tubarão, Urubici, Imbituba, Braço do Norte, São Ludgero e, benza Deus! Santa Rosa de Lima. Dois mil e cem habitantes, quedas d’água, rafting, águas termais, água mineral na torneira! Um jeito simples, um clima de curar tuberculose e a sensação de que não se pode morrer sem aproveitar muito disso tudo. Minhas retinas registraram e eu não vou esquecer as encostas da serra geral. Menos ao sul, conheci também o alto vale do Itajaí, onde as estradas não são duplicadas e o passeio ganha certa cara de preocupação, mas onde as paisagens e o povo acolhedor fazem você esquecer que passou algumas horas ao volante, e mais, fazem você querer voltar. A pequena Pouso Redondo podia ser uma das cidades citadas na música do Biquini Cavadão, porque “ninguém pode ignorar o seu jeito de ser”, seus queijos e salames, sua gente simples que insiste para você não ir tão cedo. Rios, cachoeiras expostas, um tanto de gado gordo, um pouco de mata virgem, mais um registro que não se apagará. Santa Catarina é de encher os olhos, e dá um medo de que a ganância e o a destruição vestida de progresso venham fazer disso tudo apenas uma lembrança dos velhos tempos, um quadro na parede branca. Volto à correria do dia-a-dia, à vida sem tempo, porque a tecnologia nos roubou, e em meio à tarde ensolarada, recortada pela janela do meu escritório, canto de fones nos ouvidos “Quero as tardes madrigais, que não estampam nos jornais”. As férias se aproximam, já fiz roteiros e abasteci o carro. Só falta tempo.
Escrito por Jura Arruda às 16h39
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Pessoas que nos tiram do sério
Jura Arruda 
Foto: www.imotion.com.br Na maior parte do tempo sou calmo. A maior parte do tempo não é o tempo todo. Certas situações têm o poder de alterar algo no funcionamento do meu sistema nervoso e lá se vão chutes em almofadas e pedras na rua. Geralmente, crio cenas ridículas nesses momentos e repouso na vergonha sem fim. Mas nem só situações impõem constrangimentos, pessoas também têm o poder de me tirar do sério, de fisgar o pior de mim e me exibir como uma foto de pescaria. Felizmente são poucas. Tão poucas que é possível desviar delas. O problema é quando aquela pessoa que lhe tira do sério, também lhe encanta. Aí meu amigo, se você insiste na convivência, sua qualidade de vida vai quase a zero e os nervos a frangalhos. Mas pior ainda é que depois de tudo passar, você olha para essa pessoa e pensa: como sou estúpido! Sentir-se estúpido é de lascar. Acreditar que é possível estar ao lado de uma pessoa que nos tira do sério é de doer. Nossa, como dura nada a harmonia nesse tipo de relação. E como você se sente estúpido! Cada vez me convenço mais de que o mundo é uma sucessão de eventos a partir de diferentes energias, todo o resto somos nós, bonecos, materializando os impulsos que se chocam por aí. Hum, falando assim, parece até que sou um chato esotérico, mas não sou. Ok, nem todo esotérico é chato, mas tem uns! (Sim, esqueci o arquivo do politicamente correto em outro computador, e daí?) Voltando às energias do mundo e a calmaria que eu aparento, sinceramente eu não consigo entender como se podem estabelecer níveis tão diferentes de energia. Às vezes, você olha para alguém e, de cara, já gosta. Quando conversa com essa pessoa então! Percebe que gosta mesmo. Gente fina e coisa e tal. Com outras pessoas, a primeira impressão é ruim e todo o resto também. Mas o maior perigo, incompreensível leitor, indecifrável leitora, é você encontrar uma pessoa cujas energias estão em profusão, gerando raios de todas as intensidades para todos os lados. É melhor não ir com a fachada da pessoa. Porque se você, de cara já gosta, vai arrumar uma confusão tremenda no momento em que as energias estiverem em níveis diferentes, se o positivo e o negativo se tocarem, você vai deixar de ser o calmo que aparenta. Uma face sua, horrível, virá à tona e isso é bem ruim. Ando um tanto incomodado com essa minha outra face. Eu, que nunca me permiti um porre homérico por não gostar de perder o controle, ando extremamente chateado por estar sendo tão frágil diante de pessoas que me tiram do sério. Dose, viu! Um uísque por favor!
Escrito por Jura Arruda às 18h19
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
Jura Arruda  Foto: bibliotecajoanina.uc.pt
Eu conheço a solidão e suas faces. Ando a encará-las novamente. Oscilo entre a solidão que arrebata e a que ameniza. Tenho pólos. Aprendi que nas extremidades é que se sente e se domina. Mas o equilíbrio me derruba. Sou imersão. Corro tantos caminhos e me perco, e me encontro, e sou esquinas. Dos amores passados, trago a vergonha de não tê-los ainda; do amor que virá, vislumbro a ventura do fim da busca. Achei que estava bom quando comprei um fusca e aquela moça veio morar comigo. Mas a moça partiu... Ou eu parti? Virei solidão que dói. Não muito. Paradoxo! Doeu menos do que o amor que depois veio. E era tanto sentir, tanto sentir, que dava medo do tanto que se podia amar. E de tanto amar, acabou. O Oswaldo falou que há outra abordagem da solidão. Disse que além dessa que a gente jura que não vai aguentar, tem aquela boa. E eu digo que boa é aquela que se deseja porque se percebe que a pessoa mais importante não é a que partiu. Bom é querer o espaço aberto entre o agora e o daqui a pouco para sentir brisa e vento. Bicicleta, que o fusca já era. Carro de luxo que virá, virá? Pra sonhar não precisa dois. Bom de estar só é sonhar. E o horário das refeições e a liberdade do cardápio e a música que se escolhe e o silêncio. Falando sério, estar só, quando demora, é um saco! Querer estar só é querer só por um momento. Ninguém quer estar só para sempre. Ninguém quer. Você quer? Conte-me como. Mande e-mail, carta ou convide para um café. Vamos propor essa discussão? Escreva, comente aqui ou no blog: Quanto de solidão cabe na gente antes de querermos acabar com a solidão? Você sabe o limite? Façamos esse diálogo porque ando meio cansado de monólogos. Hei, você me lê? Alguns escritores dizem que escrever é um ato solitário... Sim, é. Alguns dizem que ler é um ato solitário... Sim, é. Quanta solidão cabe na página deste jornal? A notícia aí de cima falou com você? Esse texto fala com você? Cadê a expressão no seu rosto? Eu não vejo. O fusca se foi. Carrinho pouco mais novo chegou. A bicicleta está na garagem murchando os pneus. Meus amores passados ainda trago na lembrança, uns me pesam nos ombros, outros me inundam o peito. Outros, retratos, estão como se não estivessem. Não quero nenhum deles mais. A solidão anda me caindo bem ultimamente. Até quando? Até quando a gente pode desejar estar só? Até quando a gente pode gostar disso? Quando o sorriso vai virar careta e a carência nos cegar? Quanto, meu bem resolvido leitor, minha mais do que humana leitora? Quanto da boa solidão nos cabe antes de não cabermos mais em nós? Quanto há de pesar no peito a ausência daquela sua presença? Quanto há de estar presente essa sua estúpida ausência, essa ausência, esse orgulho? Dizia e estava certo, o Daniel: Somos todos sóis sós.
Escrito por Jura Arruda às 11h33
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
|
| |
| |
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ] |
|
|
|
|